Questão 01.
Família
Três meninos e duas meninas,
sendo uma ainda de colo.
A cozinheira preta,
a copeira mulata,
o papagaio,
o gato,
o cachorro,
as galinhas gordas no palmo de horta
e a mulher que trata de tudo.
A espreguiçadeira, a cama, a gangorra,
o cigarro, o trabalho, a reza,
a goiabada na sobremesa de domingo,
o palito nos dentes contentes,
o gramofone rouco toda noite
e a mulher que trata de tudo.
O agiota, o leiteiro, o turco,
o médico uma vez por mês,
o bilhete todas as semanas
branco! mas a esperança sempre verde.
A mulher que trata de tudo
e a felicidade.
> ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma poesia.
No poema de Drummond,
A) a hierarquização dos substantivos que compõem a primeira estrofe tem a função de situar essa família na sociedade escravagista do século XIX.
B) a repetição de um verbo de ação, em contraste com o caráter nominal dos versos, destaca a serventia da figura feminina na organização familiar.
C) a ausência de menção direta ao homem produz um retrato reativo à família patriarcal, por salientar o protagonismo social da mulher.
D) o modo como os elementos que compõem a terceira estrofe estão relacionados permite inferir a prosperidade econômica familiar.
E) o enquadramento da mulher no ambiente doméstico lança luz sobre um regime social que favorece a realização plena das potencialidades femininas.
* * *
Instrução: Texto para as questões 02 e 03.
Luc Boltanski e Ève Chiapello demonstram com clareza e sagacidade a capacidade antropofágica do capitalismo financeiro que “engole” a linguagem do protesto e da libertação para transformá-la e utilizá-la para legitimar a dominação social e política a partir do próprio mercado.
Na dimensão do mundo do trabalho, por exemplo, todo um novo vocabulário teve que ser inventado para escamotear as novas transformações e melhor oprimir o trabalhador. Com essa linguagem aparentemente libertadora, passa-se a impressão de que o ambiente de trabalho melhorou e o trabalhador se emancipou.
Assim houve um esforço dirigido para transformar o trabalhador em “colaborador”, para eufemizar e esconder a consciência de sua superexploração; tenta-se também exaltar os supostos valores de liderança para possibilitar que, a partir de agora, o próprio funcionário, não mais o patrão, passe a controlar e vigiar o colega de trabalho. Ou, ainda, há a intenção de difundir a cultura do empreendedorismo, segundo a qual todo mundo pode ser empresário de si mesmo. E, o mais importante, se ele falhar nessa empreitada, a culpa é apenas dele. É necessário sempre culpar individualmente a vítima pelo fracasso socialmente construído.
> SOUZA, Jessé. Como o racismo criou o Brasil. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2021.
Questão 02.
De acordo com o texto, o uso de “colaborador” no lugar de“trabalhador”, no campo das relações de trabalho, indica
A) o apagamento da linguagem de reivindicação e a falsa ideia de um trabalhador fortalecido.
B) a valorização do trabalhador vigiado pelo Estado nas tradicionais relações empregatícias.
C) a difusão da cultura da meritocracia, que fortalece as relações do trabalhador com o Estado.
D) a consciência do patrão que rejeita a cultura do neoliberalismo.
E) o impedimento de o trabalhador investir na prática do empreendedorismo.
Questão 03.
O uso dos verbos “passar” (2º parágrafo) e “tentar” (3º parágrafo) no texto, em sua forma pronominal, revela
A) adequação à forma analítica da voz passiva.
B) construção com conjunção integrante.
C) marcação da impessoalidade do discurso.
D) informalidade correspondente ao gênero discursivo.
E) ênfase na reciprocidade da linguagem.
Questão 04.
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| Disponível em: https://tirasarmandinho.tumblr.com/ (Adaptação). |
Os verbos “detonar” e “avariar”, no texto, são exemplos de
A) usos linguísticos próprios de gêneros da área jurídica.
B) termos cujos sentidos se contradizem na composição da tira.
C) vocábulos empregados informalmente.
D) recursos linguísticos inadequados à situação de comunicação.
E) escolhas vocabulares associadas ao contexto de cada personagem.
Questão 05.
Mas não medimos os tempos que passam, quando os medimos pela sensibilidade. Quem pode medir os tempos passados que já não existem ou os futuros que ainda não chegaram? Só se alguém se atrever a dizer que pode medir o que não existe!
Quando está decorrendo o tempo, pode percebê-lo e medi-lo. Quando, porém, já estiver decorrido, não o pode perceber nem medir, porque esse tempo já não existe.
> Santo Agostinho. Confissões.
O tempo físico e o tempo psicológico se diferenciam na medida em que o primeiro se firma na objetividade e o segundo, na subjetividade. De acordo com os argumentos de Santo Agostinho, pode-se dizer que, no romance Angústia, de Graciliano Ramos, a passagem que melhor exprime a duração interior é:
A) “– 1910. Minto, 1911. 1911, Manuel?”
B) “Os galos marcavam o tempo, importunavam mais que os relógios.”
C) “Julião Tavares ia afastar-se, dissipar-se, virar neblina.”
D) “Mas no tempo não havia horas.”
E) “O espírito de Deus boiava sobre as águas.”
Questão 06.
Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte
Porque apesar de muito moço, me sinto são e salvo e forte
E tenho comigo pensado, Deus é brasileiro e anda do meu lado
E assim já não posso sofrer no ano passado
Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro
> SUJEITO de sorte. Compositor: Belchior.
Leia as seguintes afirmações a respeito da letra da música:
I. Os adjuntos adverbiais temporais remetem a um contraste entre passado e presente, o que reforça o caráter metafórico do texto.II. A locução “apesar de” contribui para a expressão de um sentimento inesperado em relação ao sentido de “muito moço”.III. As formas verbais “morri” e “morro”, embora se refi ram a momentos distintos, apresentam sentido denotativo.
Está correto o que se afirma em:
A) I, apenas.
B) II, apenas.
C) I e II, apenas.
D) II e III, apenas.
E) I, II e III.
* * *
Instrução: Texto para as questões 07 e 08.
O Quinto Império
Triste de quem vive em casa
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!
Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz –
Ter por vida a sepultura.
Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!
E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.
Grécia, Roma, Cristandade,
Europa – os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?
> PESSOA, Fernando. Mensagem.
Questão 07.
De acordo com o texto, a ideia de felicidade, também nuclear em outros poemas de Mensagem,
A) alimenta as aspirações humanas.
B) compreende-se como superação da morte.
C) identifica-se com o destino heroico.
D) compõe a mediocridade cotidiana.
E) situa-se como finalidade da existência.
Questão 08.
Mensagem reconduz a história de Portugal a partir de uma reinterpretação do tempo histórico. No poema, o tempo é encarado segundo uma concepção
A) nostálgica, devido à presença de modelos situados no passado.
B) materialista, por efeito da aspiração burguesa de um lar confortável.
C) mística, em razão do prognóstico de um futuro metafísico.
D) biológica, por mérito da aceitação do ciclo natural da existência.
E) psicológica, em virtude da referência ao substantivo “sonho”.
Questão 09.
Eu quase fui um índio sacana, como meu tio. [...] Desses índio que são índio pela metade. Ou seja, qui nem índio, nem branco, nem cholo, nem negro, nem serrano, nem costeiro, nem camponês, nem equatoriano, nem estrangeiro, nem nada. Índio sacana, claro. Índio qu’está à vista de toda gente e ninguém vê, qu’está mesminho nas ruas todos os dias, caminhando pra lá pra cá, buscando trabalho nas porta de gente rica, de jardineiro, de mensageiro, cuidador de cachorros, saloneiro, caseiro, criador de crianças, de toda classe de trabalho. Chofer. O Equador está cheinho de índio sacana assim. Desse tipo d’índio que não é nada.
CARVALHO-NETO, Paulo de. Meu tio Atahualpa. Rio de Janeiro: Salamandra, 1978.
A expressão “índio sacana”, presente no texto, faz referência a:
A) Uma parcela da população indígena caracterizada por sua autonomia e resistência às formas pós-coloniais de dominação.
B) Um grupo social cuja inserção na sociedade equatoriana foi complexa e limitada.
C) Uma etnia que historicamente alcançou a emancipação política e social por meio da assimilação da cultura europeia.
D) Um conjunto de indivíduos de nacionalidade estrangeira cujos hábitos e costumes contrastavam com os da população local.
E) Um segmento que ganhou visibilidade por ocupar posições sociais de prestígio.
Questão 10.
Migna terra tê parmeras
Che ganta inzima o sabiá.
As aves che stó aqui,
Tambê tuttos sabi gorgeá.
[...]
Os rio lá sô maise grandi
Dus rio di tuttas naçó;
I os matto si perdi di vista,
Nu meio da imensidó.
> BANANÉRE, Juó. Migna terra. La Divina Increnca. São Paulo: Irmãos Marrano Editora, 1924.
Assinale a alternativa que melhor expressa as relações entre o poema e a inserção social de imigrantes italianos no Brasil.
A) O poema traça uma analogia entre a paisagem natural da Itália e do Brasil, sob os olhos de um imigrante.
B) A referência à oralidade era um reconhecimento à contribuição desta comunidade para a nova literatura brasileira.
C) O poema tematiza a revolta dos imigrantes camponeses italianos ao chegarem nas fazendas de café.
D) O caráter lírico presente no poema indica a emotividade e o desejo de aceitação por parte dos imigrantes.
E) A linguagem adotada no poema expressava uma maneira caricata de representar o idioma daquela comunidade.
Questão 11.
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| Disponível em: https://incrivel.club/admiracao-fotografia/ (Adaptação) |
Com base na peça publicitária da Anistia Internacional, é correto afirmar que
A) a correlação verbo-visual, reforçada pela polissemia do verbo “desligar”, contrapõe quem vive e quem observa a guerra.
B) os pronomes “você” e “eles” indicam compatibilidade ideológica entre grupos de regiões diferentes.
C) a linguagem visual impede a conscientização acerca das realidades das zonas de guerra.
D) a omissão do verbo no segundo período do texto coloca o leitor como participante da guerra.
E) os recursos visuais possuem independência da expressão linguística na interpretação da publicidade.
Gabarito
01. B
02. A
03. C
04. E
05. D
06. C
07. D
08. C
09. B
10. E
11. A


