28 outubro 2024

10 Frases Curtas de Shakespeare

William Shakespeare
 
 "A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, sem sentido algum."
- Macbeth

"Há mais coisas no céu e na terra, (...), do que sonha a tua filosofia."
- Hamlet

"Há algo de podre no reino da Dinamarca".
- Hamlet

"Dê a todas pessoas seus ouvidos, mas a poucas a sua voz."
- Hamlet

"Nada me deixa tão feliz quanto ter um coração que não se esquece de seus amigos".
- A Tragédia do Rei Ricardo II

"O amor é cego, e os namorados nunca vêem as tolices que praticam".
- O Mercador de Veneza

"Nós somos feitos do tecido de que são feitos os sonhos."
- A Tempestade

"É lícito aspirar ao que não se pode alcançar".
- Péricles

"Pobre é o amor que pode ser contado".
- Antônio e Cleópatra

"Entre dois beijos abrimos mão de reinos e províncias".
- Antônio e Cleópatra


Referência
Disponível em: <https://pt.wikiquote.org/wiki/William_Shakespeare>. Acesso em: 28 out. 2024.

24 outubro 2024

ENEM 2023 — Redação nota 1.000 de Amanda Teixeira Zampiris



Na obra intitulada “Brasil, País do Futuro”, Stefan Zweig, autor austríaco, em sua visita ao Brasil, defendeu a ideia de que o país estava destinado a ser um dos mais importantes países do mundo no futuro. No entanto, 80 anos depois, as previsões do autor ainda não se concretizaram e os desafios para enfrentar a invisibilidade do trabalho de cuidado — realizado por mulheres — são entraves para isso. Observa-se, assim, que isso ocorre porque a negligência governamental e a permanência histórica impedem a resolução da questão.
Contextualização
Tema
Tese

Sob este viés, é preciso atentar para a omissão estatal presente nessa problemática. Nessa perspectiva, o pensador Thomas Hobbes afirma que o Estado é responsável por garantir o bem-estar da população. Entretanto, isso não ocorre no Brasil, pois a falta de atuação das autoridades corrobora a permanência do trabalho de cuidado não remunerado e mal pago realizado, principalmente, por mulheres — que inclui cuidar de crianças e idosos, bem como os afazeres domésticos —, visto que o Governo não tem cumprido seu papel no sentido de assegurar os direitos básicos a esse grupo social, como o direito a um salário digno. Assim, as funções sociais e estatais são descumpridas, agravando o problema.

Outrossim, a permanência histórica é fator importante como constituinte desse imbróglio. Nesse sentido, consoante ao pensamento do antropólogo Claude Lévi-Strauss, só é possível compreender adequadamente as ações coletivas por meio do entendimento dos eventos históricos. Desse modo, a questão da invisibilidade do trabalho de cuidado feito por mulheres majoritariamente pobres e vítimas de discriminação de gênero, mesmo que fortemente presente no século XXI, apresenta raízes indissociáveis à história brasileira — que foi marcada pelo machismo e pelo patriarcado —, uma vez que as atividades domésticas não pagas ainda são delegadas às pessoas do sexo feminino de forma quase que exclusiva.

Faz-se necessário, portanto, que meios sejam criados para intervir nesse óbice. Logo, o Governo Federal — órgão responsável pela administração federal em todo território nacional — deve estabelecer políticas públicas que garantam a remuneração e a valorização do trabalho de cuidado, por meio da utilização de verbas governamentais para o pagamento de salários. Tal ação deve ser realizada com a finalidade de mitigar a invisibilidade dos afazeres domésticos realizados pela mulher na sociedade brasileira e, consequentemente, combater as raízes históricas presentes nessa questão. Dessarte, o Brasil poderá se tornar um “País do Futuro”, como defendido por Stefan Zweig.

Comentário

A participante demonstra excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa. A redação é caracterizada pelo excelente domínio das estruturas sintáticas, com um desvio, referente à regência de “consoante” no trecho “consoante ao pensamento do antropólogo Claude Lévi-Strauss” (linha 15).

A participante também demonstra excelente domínio do texto dissertativo- argumentativo. O tema é desenvolvido por meio da ideia de que o potencial de desenvolvimento do Brasil tem como uma de suas causas a invisibilidade do trabalho de cuidado realizado por mulheres, causada tanto pela negligência do Estado quanto por fatores históricos. Na introdução, a referência à expressão “país do futuro” para se referir ao Brasil, tirada da obra de Stefan Sweig, é o mote para o início da argumentação e a constatação de que esse futuro ainda não chegou, uma vez que problemas como a invisibilidade do trabalho de cuidado feito por mulheres seriam obstáculos para que esse potencial se cumprisse. Nesse sentido, são indicadas como causas tanto a omissão do Estado quanto a permanência histórica do problema.

No segundo parágrafo, a participante argumenta que o Estado, embora tenha a obrigação de garantir o bem-estar da população, não tem garantido as condições para a remuneração adequada às mulheres que exercem o trabalho de cuidado. No desenvolvimento desse primeiro argumento, a participante detalha o que é o trabalho de cuidado e sustenta sua afirmação sobre o papel do Estado na obra do filósofo Thomas Hobbes.

No terceiro parágrafo, articulado à argumentação anterior, destaca-se o papel do patriarcado como fenômeno histórico de longa duração que auxilia na compreensão das razões pelas quais a invisibilidade ainda se faz presente no século XXI. A importância da compreensão desse fenômeno a partir de uma perspectiva histórica está sustentada na citação da obra de Claude Lévi-Strauss. Desse modo, com argumentos coerentes entre si e excelente domínio do texto dissertativo- argumentativo, a participante aborda o tema de forma completa, com uso de repertório sociocultural produtivo.

O projeto de texto é eficiente, uma vez que apresenta informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto, de forma consistente e bem organizada, em defesa do ponto de vista defendido. Inicialmente, a participante alude à expressão “Brasil, país do futuro”, abrindo, nessa imagem, a fissura que representa a constatação do problema da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher na sociedade brasileira. Nesse sentido, dois argumentos principais, um ligado à circunstância da omissão estatal e outro à permanência histórica do problema, são anunciados. Para tratar do primeiro, detalha-se o conceito do trabalho de cuidado e destaca-se o papel do Estado como garantidor do bem-estar das mulheres. Na apresentação do segundo argumento, a participante recorre ao papel do patriarcado na permanência histórica da invisibilização das mulheres. Por fim, propõe-se uma solução que passa justamente pelo papel do governo e das políticas públicas, com uma saída econômica. Ao final, a autora retoma a imagem de futuro evocada na introdução, para fechar sua argumentação com uma nota de esperança. Contata-se, então, que a seleção e a articulação dos argumentos garantem ao texto um projeto coerente e autoral.

Em relação aos aspectos coesivos, já notados na continuidade temática, observa-se, nessa redação, um repertório diversificado de recursos coesivos, sem inadequações. No plano nominal, há o emprego de pronomes (“isso”, “nesse”, “tal”) e palavras e expressões sinônimas ou equivalentes (“mulheres”, “esse grupo social”, “pessoas do sexo feminino”). No plano sequencial, há o emprego de marcadores argumentativos e conectivos dentro dos parágrafos e entre as partes do texto (“Sob este viés”, “Outrossim”, “portanto”, “Desse modo”). A participante também utilizou os sinais de pontuação, ligando palavras, orações e períodos complexos, com pertinência e de modo correto.
Por fim, o texto apresenta proposta de intervenção completa, que é avaliada como muito boa. Objetiva, a proposta está articulada à discussão desenvolvida no texto e apresenta uma ação: proposição de políticas públicas de cunho econômico por meio de dispêndio de recursos federais para pagamento de salários, a fim de diminuir a invisibilidade da mulher que exerce o trabalho de cuidado e contribuir para que o país cumpra seu potencial.

Conclui-se, portanto, que a participante contemplou, em seu texto, integralmente e com excelência, todas a partes da proposta de redação.

Referência

INEP/Ministério de Educação. A Redação do ENEM: Cartilha do(a) Participante 2024. Disponível em: <https://download.inep.gov.br/publicacoes/institucionais/avaliacoes_e_exames_da_educacao_basica/a_redacao_no_enem_2024_cartilha_do_participante.pdf>. Acesso em: 24 out. 2024.

ENEM 2023: Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil

 

TEXTO I

O trabalho de cuidado não remunerado e mal pago e a crise global da desigualdade

O trabalho de cuidado é essencial para nossas sociedades e para a economia. Ele inclui o trabalho de cuidar de crianças, idosos e pessoas com doenças e deficiências físicas e mentais, bem como o trabalho doméstico diário que inclui cozinhar, limpar, lavar, consertar coisas e buscar água e lenha. Se ninguém investisse tempo, esforços e recursos nessas tarefas diárias essenciais, comunidades, locais de trabalho e economias inteiras ficariam estagnados. Em todo o mundo, o trabalho de cuidado não remunerado e mal pago é desproporcionalmente assumido por mulheres e meninas em situação de pobreza, especialmente por aquelas que pertencem a grupos que, além da discriminação de gênero, sofrem preconceito em decorrência de sua raça, etnia, nacionalidade e sexualidade. As mulheres são responsáveis por mais de três quartos do cuidado não remunerado e compõem dois terços da força de trabalho envolvida em atividades de cuidado remuneradas.
Documento informativo – Tempo de Cuidar. Disponível em: https://www.oxfam.org.br. Acesso em: 18 de jul. de 2023 (adaptado).

TEXTO II

Média de horas dedicadas pelas pessoas de 14 anos ou mais de idade aos afazeres domésticos e/ou às tarefas de cuidado de pessoas, por sexo

Brasil 2019
Sexo: Horas Semanais
Homens: 11,0
Mulheres: 21,4
Fonte: IBGE - Pnad contínua anual
Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br. Acesso em: 18 de jul. 2023 (adaptado).

TEXTO III
A sociedade brasileira tem passado por inúmeras transformações sociais ao longo das últimas décadas. Entre elas, as percepções sociais a respeito dos valores e das convenções de gênero e a forma como mulheres têm se inserido na sociedade. Algumas permanências, porém, chamam a atenção, como a delegação quase que exclusiva às famílias – e, nestas, às mulheres – de atividades relacionadas à reprodução da vida e da sociedade, usualmente nominadas trabalho de cuidado.
Disponível em: https://repositorio.ipea.gov.br. Acesso em: 24 maio 2023 (adaptado).


TEXTO IV
Capa da revista Pesquisa. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br. Acesso em: 23 maio 2023 (adaptado).

PROPOSTA DE REDAÇÃO

A partir da leitura dos textos motivadores e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija texto dissertativo-argumentativo em modalidade escrita formal da língua portuguesa sobre o tema “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”, apresentando proposta de intervenção que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para a defesa de seu ponto de vista.


Referência

ENEP. Prova do 1º Dia – Caderno 1 – Azul – Aplicação Regular [p. 19]. Disponível em: <https://download.inep.gov.br/enem/provas_e_gabaritos/2023_PV_impresso_D1_CD1.pdf>. Acesso em: 24 out. 2024.






23 outubro 2024

Declaração [Stefan Zweig]

Stefan Zweig

O último texto do escritor austríaco Stefan Zweig, sua nota de suicídio, foi todo redigido em alemão, sua língua do coração, mas com título em português: Declaração. Ele e a segunda esposa, Lotte, abandonaram a vida em 22 de fevereiro de 1942, em Petrópolis, onde o casal se refugiou após sair da Europa assolada pela Segunda Guerra Mundial.


Antes de deixar a vida, de livre vontade e no meu perfeito juízo, uma última obrigação se me impõe: agradecer do mais íntimo de me a este maravilhoso país, o Brasil, que me propiciou, e à minha obra, uma tão boa e hospitaleira guarida. A cada dia fui aprendendo a amar mais e mais este país, e em nenhum outro lugar  poderia ter reconstruído por completo a minha vida, logo quando o mundo da minha própria língua acabou para mim e o meu lar espiritual, a Europa, se auto-aniquila.

Mas, depois dos sessenta anos, são necessárias enormes forças  para começar tudo de novo. E as minhas exauriram-se nestes longos anos de errância sem pátria. Assim, achei melhor encerrar, no devido tempo e de cabeça erguida, uma vida que sempre teve no trabalho intelectual a mais pura alegria, e na liberdade pessoal o bem mais precioso sobre a Terra.

Saúdo todos os meus amigos! Que ainda possam ver a aurora após a longa noite! Eu, demasiado impaciente, vou-me embora antes.

Stefan Zweig
Petrópolis, 22. II. 1942



Referências:

Reprodução.  Acesso em 23 out. 2024.
Declaração.  Acesso em 23 out. 2024.




















10 Frases curtas de João Guimarães Rosa

João Guimarães Rosa

As citações são do próprio Guimarães Rosa, em falas e entrevistas, ou de trechos de suas obras.

"Viver é negócio muito perigoso."
"Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa".
"O homem nasceu para aprender, aprender tanto quanto a vida lhe permita."
"O amor é sede depois de se ter bem bebido."
"Saudade é ser, depois de ter."
"Esperar é reconhecer-se incompleto."
"Mas quem é que sabe como? Viver... o senhor já sabe: viver é etcétera..."
"A colheita é comum, mas o capinar é sozinho."
"Infelicidade é questão de prefixo."
"As pessoas não morrem, ficam encantadas."

Bônus:
"Falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituano, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do checo, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração."


Referência:

Wikiqote. Acesso em 23 out. 2024.



Sonha Alonso Quijano [Jorge Luis Borges]


Desperta aquele homem de um indistinto
Sonho de alfanjes e de campo chão,
Toca de leve a barba com a mão
Duvidando se está ferido ou extinto.
Não irão persegui-lo os feiticeiros
Que juraram seu mal por sob a lua?
Nada. O frio apenas. Apenas sua
Amargura nos anos derradeiros.
Foi o fidalgo um sonho de Cervantes
E Dom Quixote um sonho do fidalgo.
O duplo sonho os confunde e algo
Está ocorrendo que ocorreu muito antes.
Quijano dorme e sonha. Uma batalha:
Os mares de Lepanto e a metralha.

Tradução: Josely Vianna Baptista

22 outubro 2024

Exercícios de Criatividade para o Ensino Fundamental

Uma maneira de exercitar a escrita no Ensino Fundamental é propor atividades que estabeleçam regras, mas que permitam alguma liberdade para os estudantes. Algo que fiz algumas vezes e deu bons resultados, foi propor as seguintes atividades.

Caso você decida utilizar alguma (ou alguma variação) delas em sua aula, recomendo também estabelecer regras extras, de acordo com a realidade de cada turma. No meu caso, sempre estabeleço regras como: fazer título, separar em parágrafos, número mínimo de linhas entre outras.






Versos Íntimos [Augusto dos Anjos]

Augusto dos Anjos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de sua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

O tempo [Mario Quintana]

 A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.


Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…
Quando se vê, já é 6ª-feira…
Quando se vê, passaram 60 anos!
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre em frente…

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

Pressentimento [Stefan Zweig]

Stefan Zweig

As horas dançam com langor
Sobre os cabelos cinza-prata;
Só quando a taça é esvaziada,
O fundo de ouro mostra a cor.

Sentir tão perto o mais profundo
Dos sonos não transtorna... acalma.
Só quem já sossegou a alma
Contempla satisfeito o mundo.

Do que alcançou não mais duvida;
Não mais lamenta o que perdeu.
Sabe que envelhecer é seu
Caminho para a despedida.

Na derradeira luz do dia
É que a paisagem se libera;
E o homem ama a vida à vera
Quando, no escuro, a renuncia.

Trad. André Vallias




Com licença poética [Adélia Prado]

Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Retrato [Cecília Meireles]

 

Cecília Meireles

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?


10 Frases de Chico Buarque de Holanda

 "São Paulo é detestável, um desastre, a cidade que não deu certo. Estou falando da arquitetura, do urbanismo."

- Revista Trip, abril-maio de 2006.


"Como eu bebia muito, fiquei encarregado de arrumar garrafas para fazer bomba molotov."

-Sobre os planos de reação ao Golpe Militar de 1964, no documentário O Sol – Caminhando Contra o Vento

-Revista ISTO É Gente, Edição 365.


"Não tomo mais uísque. Cantar bêbado pode ser engraçado, mas não a temporada inteira. Faz mal para o fígado".

-Revista ISTO É, Edição 1924.


"Detesto ouvir música."

- Fonte: Revista Veja, Edição 1 653 - 14/6/2000


"Não é mais motivo de orgulho ser carioca. Então é hora de me afirmar como um."

- Fonte: REVISTA CARAS, São Paulo: Editora Abril, edição 651, p. 76, abr. 2006




Soneto de Fidelidade [Vinicius de Moraes]


De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

A Casa do Oscar [Chico Buarque de Holanda]

O texto a seguir foi escrito por Chico Buarque de Holanda em 15 de dezembro de 1997, para homenagear os 90 anos de Oscar Niemeyer.

A casa do Oscar era o sonho da família. Havia um terreno para os lados da Iguatemi, havia o anteprojeto, presente do próprio, havia a promessa de que um belo dia iríamos morar na casa do Oscar. Cresci cheio de impaciência porque meu pai, embora fosse dono do Museu do Ipiranga, nunca juntava dinheiro para construir a casa do Oscar. Mais tarde, num aperto, em vez de vender o museu com os cacarecos dentro, papai vendeu o terreno da Iguatemi. Desse modo a casa do Oscar, antes de existir, foi demolida. Ou ficou intacta, suspensa no ar, como a casa no beco de Manuel Bandeira.

Senti-me traído, tornei-me um rebelde, insultei meu pai, ergui o braço contra minha mãe e saí batendo a porta da nossa casa velha e normanda: só volto para casa quando for a casa do Oscar! Pois bem, internaram-me num ginásio em Cataguases, projeto do Oscar. Vivi seis meses naquele casarão do Oscar, achei pouco, decidi-me a ser Oscar eu mesmo. Regressei a São Paulo, estudei geometria descritiva, passei no vestibular e fui o pior aluno da classe. Mas ao professor de topografia, que me reprovou no exame oral, respondi calado: lá em casa tenho um canudo com a casa do Oscar.

Depois larguei a arquitetura e virei aprendiz de Tom Jobim. Quando minha música sai boa, penso que parece música do Tom Jobim. Música do Tom, na minha cabeça, é casa do Oscar.

Sabiá [Chico Buarque de Holanda]

Chico Buarque de Holanda

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
(Cantar uma sabiá)

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De uma palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor
Talvez possa espantar
As noites que eu não queria
E anunciar o dia

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá, é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
(Cantar uma sabiá)

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
E é pra ficar
Sei que o amor existe
Eu não sou mais triste
E que a nova vida
Já vai chegar
E que a solidão
Vai se acabar
Hei de ouvir cantar
Uma sabiá

Terra das Palmeiras [Taiguara]

Taiguara 

Sonhada terra das palmeiras
Onde andará teu sabiá?
Terá ferida alguma asa?
Terá parado de cantar?

Sonhada terra das palmeiras
Como me dói meu coração
Como me mata o teu silêncio
Como estás só na escuridão

Ah! Minha amada amordaçada
De amor forçado a se calar
Meu peito guarda o sangue em pranto
Que ainda por ti, vou derramar

Ah! Minha amada amortalhada
Das mãos do mal vou te tirar
P'ra dançar danças de outras terras
E em outras línguas te acordar ...
E em outras línguas te acordar...
E de outras terras te acordar...
Amada minha te acordar...
Querida minha te acordar...
Em outras línguas te acorda
Ah,ah, ah,ah...


21 outubro 2024


Nova canção do exílio [Ferreira Gullar]

Ferreira Gullar

Minha amada tem palmeiras
Onde cantam passarinhos
e as aves que ali gorjeiam
em seus seios fazem ninhos

Ao brincarmos sós à noite
nem me dou conta de mim:
seu corpo branco na noite
luze mais do que o jasmim

Minha amada tem palmeiras
tem regatos tem cascata
e as aves que ali gorjeiam
são como flautas de prata

Não permita Deus que eu viva
perdido noutros caminhos
sem gozar das alegrias

que se escondem em seus carinhos
sem me perder nas palmeiras
onde cantam os passarinhos

Canção do Exílio [Casimiro de Abreu]

Casimiro de Abreu

Se eu tenho de morrer na flor dos anos
Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!

Meu Deus, eu sinto e tu bem vês que eu morro
Respirando este ar;
Faz que eu viva, Senhor! dá-me de novo
Os gozos do meu lar!

O país estrangeiro mais belezas
Do que a pátria não tem;
E este mundo não vale um só dos beijos
Tão doces duma mãe!

Dá-me os sítios gentis onde eu brincava
Lá na quadra infantil;
Dá que eu veja uma vez o céu da pátria,
O céu do meu Brasil!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos
Meu Deus! não seja já!
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!

Quero ver esse céu da minha terra
Tão lindo e tão azul!
E a nuvem cor-de-rosa que passava
Correndo lá do sul!

Quero dormir à sombra dos coqueiros,
As folhas por dossel;
E ver se apanho a borboleta branca,
Que voa no vergel!

Quero sentar-me à beira do riacho
Das tardes ao cair,
E sozinho cismando no crepúsculo
Os sonhos do porvir!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
A voz do sabiá!

Quero morrer cercado dos perfumes
Dum clima tropical,
E sentir, expirando, as harmonias
Do meu berço natal!

Minha campa será entre as mangueiras,
Banhada do luar,
E eu contente dormirei tranqüilo
À sombra do meu lar!

As cachoeiras chorarão sentidas
Porque cedo morri,
E eu sonho no sepulcro os meus amores
Na terra onde nasci!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!

Europa, França e Bahia [Carlos Drummond de Andrade]

Carlos Drummond de Andrade

Meus olhos brasileiros sonhando exotismos.
Paris. A torre Eiffel alastrada de antenas como um caranguejo.
Os cais bolorentos de livros judeus
e a água suja do Sena escorrendo sabedoria.

O pulo da Mancha num segundo.
Meus olhos espiam olhos ingleses vigilantes nas docas.

Tarifas bancos fábricas trustes craques.
Milhões de dorsos agachados em colônias longínquas formam um tapete
para sua Graciosa Majestade Britânica pisar.
E a lua de Londres como um remorso.

Submarinos inúteis retalham mares vencidos.
O navio alemão cauteloso exporta dolicocéfalos arruinados.
Hamburgo, umbigo do mundo.
Homens de cabeça rachada cismam em rachar a cabeça dos outros
dentro de alguns anos.

A Itália explora conscienciosamente vulcões apagados,
vulcões que nunca estiveram acesos
a não ser na cabeça de Mussolini.
E a Suíça cândida se oferece
numa coleção de postais de altitudes altíssimas.

Meus olhos brasileiros se enjoam da Europa.

Não há mais Turquia
O impossível dos serralhos esfacela erotismos prestes a deslanchar.
Mas a Rússia tem as cores da vida.
A Rússia é vermelha e branca.
Sujeitos com um brilho esquisito nos olhos criam o filme bolchevista
e no túmulo de Lenin em Moscou parece que um coração enorme
está batendo, batendo
mas não bate igual ao da gente...

Chega!
Meus olhos brasileiros se fecham saudosos.
Minha boca procura a "canção do exílio".
Como era mesmo a "canção do exílio"?
Eu tão esquecido de minha terra...
Ai terra que tem palmeiras
Onde canta o sabiá! e dificil

Canto de regresso à pátria [Oswald de Andrade]

Oswald de Andrade


Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá

Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra

Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá

Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo

Uma canção [Mario Quintana]

Mario Quintana

Minha terra não tem palmeiras... 
E em vez de um mero sabiá, 
Cantam aves invisíveis
Nas palmeiras que não há.

Minha terra tem relógios,
Cada qual com sua hora
Nos mais diversos instantes...
Mas onde o instante de agora?

Mas onde a palavra "onde"?
Terra ingrata, ingrato filho,
Sob os céus da minha terra
Eu canto a Canção do Exílio!

Conjunções Coordenativas

As conjunções coordenativas são palavras que conectam duas ou mais orações com sentido completo, independentes (orações coordenadas), ou seja, aquelas que possuem sentido completo por si mesmas e não dependem de outra oração para fazer sentido.

As conjunções coordenativas são divididas em cinco classificações:

Canção do exílio [Murilo Mendes]

Murilo Mendes

Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam  gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá con certidão de idade!

Outra Canção do Exílio [Eduardo Alves da Costa]

Eduardo Alves da Costa

Minha terra tem Palmeiras,
Corinthians e outros times
de copas exuberantes
que ocultam muitos crimes.
As aves que aqui revoam
são corvos do nunca mais,
a povoar nossa noite
com duros olhos de açoite
que os anos esquecem jamais.

Em cismar sozinho, ao relento,
sob um céu poluído, sem estrelas,
nenhum prazer tenho eu cá;
porque me lembro do tempo
em que livre na campina
pulsava meu coração, voava,
como livre sabiá; ciscando
nas capoeiras, cantando
nos matagais, onde hoje a morte
tem mais flores, nossa vida
mais terrores, noturnos,
de mil suores fatais.

Minha terra tem primores,
requintes de boçalidade,
que fazem da mocidade
um delírio amordaçado:
acrobacia impossível
de saltimbanco esquizóide,
equilibrado no risível sonho
de grandeza que se esgarça e rompe,
roído pelo matreiro cupim da safadeza.

Minha terra tem encantos
de recantos naturais,
praias de areias monazíticas,
subsolos minerais
que se vão e não voltam mais.
 
A chorar sozinho, aflito,
penso, medito e reflito,
sem encontrar solução;
a não ser voar para dentro,
voltar as costas à miséria,
à doença e ao sofrimento,
que transcendem o quanto possam
o pensamento conceber
e a consciência suportar.

Minha terra tem palmeiras
a baloiçar, indiferentes
aos poetas dementes
que sonham de olhos abertos
a rilhar os dentes.
 
Não permita Deus que eu morra
pelo crime de estar atento;
e possa chegar à velhice
com os cabelos ao vento
de melhor momento.
Que eu desfrute os primores
do canto do sabiá,
onde gorjeia a liberdade
que não encontro por cá. 

Canção do exílio [Gonçalves Dias]

Gonçalves Dias

Minha terra tem palmeiras
Onde canta o Sabiá,
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho, à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.