Na obra intitulada “Brasil, País do Futuro”, Stefan Zweig, autor austríaco, em sua visita ao Brasil, defendeu a ideia de que o país estava destinado a ser um dos mais importantes países do mundo no futuro. No entanto, 80 anos depois, as previsões do autor ainda não se concretizaram e os desafios para enfrentar a invisibilidade do trabalho de cuidado — realizado por mulheres — são entraves para isso. Observa-se, assim, que isso ocorre porque a negligência governamental e a permanência histórica impedem a resolução da questão.
Contextualização
Tema
Tese
Sob este viés, é preciso atentar para a omissão estatal presente nessa problemática. Nessa perspectiva, o pensador Thomas Hobbes afirma que o Estado é responsável por garantir o bem-estar da população. Entretanto, isso não ocorre no Brasil, pois a falta de atuação das autoridades corrobora a permanência do trabalho de cuidado não remunerado e mal pago realizado, principalmente, por mulheres — que inclui cuidar de crianças e idosos, bem como os afazeres domésticos —, visto que o Governo não tem cumprido seu papel no sentido de assegurar os direitos básicos a esse grupo social, como o direito a um salário digno. Assim, as funções sociais e estatais são descumpridas, agravando o problema.
Outrossim, a permanência histórica é fator importante como constituinte desse imbróglio. Nesse sentido, consoante ao pensamento do antropólogo Claude Lévi-Strauss, só é possível compreender adequadamente as ações coletivas por meio do entendimento dos eventos históricos. Desse modo, a questão da invisibilidade do trabalho de cuidado feito por mulheres majoritariamente pobres e vítimas de discriminação de gênero, mesmo que fortemente presente no século XXI, apresenta raízes indissociáveis à história brasileira — que foi marcada pelo machismo e pelo patriarcado —, uma vez que as atividades domésticas não pagas ainda são delegadas às pessoas do sexo feminino de forma quase que exclusiva.
Faz-se necessário, portanto, que meios sejam criados para intervir nesse óbice. Logo, o Governo Federal — órgão responsável pela administração federal em todo território nacional — deve estabelecer políticas públicas que garantam a remuneração e a valorização do trabalho de cuidado, por meio da utilização de verbas governamentais para o pagamento de salários. Tal ação deve ser realizada com a finalidade de mitigar a invisibilidade dos afazeres domésticos realizados pela mulher na sociedade brasileira e, consequentemente, combater as raízes históricas presentes nessa questão. Dessarte, o Brasil poderá se tornar um “País do Futuro”, como defendido por Stefan Zweig.
Comentário
A participante demonstra excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa. A redação é caracterizada pelo excelente domínio das estruturas sintáticas, com um desvio, referente à regência de “consoante” no trecho “consoante ao pensamento do antropólogo Claude Lévi-Strauss” (linha 15).
A participante também demonstra excelente domínio do texto dissertativo- argumentativo. O tema é desenvolvido por meio da ideia de que o potencial de desenvolvimento do Brasil tem como uma de suas causas a invisibilidade do trabalho de cuidado realizado por mulheres, causada tanto pela negligência do Estado quanto por fatores históricos. Na introdução, a referência à expressão “país do futuro” para se referir ao Brasil, tirada da obra de Stefan Sweig, é o mote para o início da argumentação e a constatação de que esse futuro ainda não chegou, uma vez que problemas como a invisibilidade do trabalho de cuidado feito por mulheres seriam obstáculos para que esse potencial se cumprisse. Nesse sentido, são indicadas como causas tanto a omissão do Estado quanto a permanência histórica do problema.
No segundo parágrafo, a participante argumenta que o Estado, embora tenha a obrigação de garantir o bem-estar da população, não tem garantido as condições para a remuneração adequada às mulheres que exercem o trabalho de cuidado. No desenvolvimento desse primeiro argumento, a participante detalha o que é o trabalho de cuidado e sustenta sua afirmação sobre o papel do Estado na obra do filósofo Thomas Hobbes.
No terceiro parágrafo, articulado à argumentação anterior, destaca-se o papel do patriarcado como fenômeno histórico de longa duração que auxilia na compreensão das razões pelas quais a invisibilidade ainda se faz presente no século XXI. A importância da compreensão desse fenômeno a partir de uma perspectiva histórica está sustentada na citação da obra de Claude Lévi-Strauss. Desse modo, com argumentos coerentes entre si e excelente domínio do texto dissertativo- argumentativo, a participante aborda o tema de forma completa, com uso de repertório sociocultural produtivo.
O projeto de texto é eficiente, uma vez que apresenta informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto, de forma consistente e bem organizada, em defesa do ponto de vista defendido. Inicialmente, a participante alude à expressão “Brasil, país do futuro”, abrindo, nessa imagem, a fissura que representa a constatação do problema da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher na sociedade brasileira. Nesse sentido, dois argumentos principais, um ligado à circunstância da omissão estatal e outro à permanência histórica do problema, são anunciados. Para tratar do primeiro, detalha-se o conceito do trabalho de cuidado e destaca-se o papel do Estado como garantidor do bem-estar das mulheres. Na apresentação do segundo argumento, a participante recorre ao papel do patriarcado na permanência histórica da invisibilização das mulheres. Por fim, propõe-se uma solução que passa justamente pelo papel do governo e das políticas públicas, com uma saída econômica. Ao final, a autora retoma a imagem de futuro evocada na introdução, para fechar sua argumentação com uma nota de esperança. Contata-se, então, que a seleção e a articulação dos argumentos garantem ao texto um projeto coerente e autoral.
Em relação aos aspectos coesivos, já notados na continuidade temática, observa-se, nessa redação, um repertório diversificado de recursos coesivos, sem inadequações. No plano nominal, há o emprego de pronomes (“isso”, “nesse”, “tal”) e palavras e expressões sinônimas ou equivalentes (“mulheres”, “esse grupo social”, “pessoas do sexo feminino”). No plano sequencial, há o emprego de marcadores argumentativos e conectivos dentro dos parágrafos e entre as partes do texto (“Sob este viés”, “Outrossim”, “portanto”, “Desse modo”). A participante também utilizou os sinais de pontuação, ligando palavras, orações e períodos complexos, com pertinência e de modo correto.
Por fim, o texto apresenta proposta de intervenção completa, que é avaliada como muito boa. Objetiva, a proposta está articulada à discussão desenvolvida no texto e apresenta uma ação: proposição de políticas públicas de cunho econômico por meio de dispêndio de recursos federais para pagamento de salários, a fim de diminuir a invisibilidade da mulher que exerce o trabalho de cuidado e contribuir para que o país cumpra seu potencial.
Conclui-se, portanto, que a participante contemplou, em seu texto, integralmente e com excelência, todas a partes da proposta de redação.
Referência