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23 outubro 2024

Sonha Alonso Quijano [Jorge Luis Borges]


Desperta aquele homem de um indistinto
Sonho de alfanjes e de campo chão,
Toca de leve a barba com a mão
Duvidando se está ferido ou extinto.
Não irão persegui-lo os feiticeiros
Que juraram seu mal por sob a lua?
Nada. O frio apenas. Apenas sua
Amargura nos anos derradeiros.
Foi o fidalgo um sonho de Cervantes
E Dom Quixote um sonho do fidalgo.
O duplo sonho os confunde e algo
Está ocorrendo que ocorreu muito antes.
Quijano dorme e sonha. Uma batalha:
Os mares de Lepanto e a metralha.

Tradução: Josely Vianna Baptista

22 outubro 2024

Versos Íntimos [Augusto dos Anjos]

Augusto dos Anjos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de sua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Pressentimento [Stefan Zweig]

Stefan Zweig

As horas dançam com langor
Sobre os cabelos cinza-prata;
Só quando a taça é esvaziada,
O fundo de ouro mostra a cor.

Sentir tão perto o mais profundo
Dos sonos não transtorna... acalma.
Só quem já sossegou a alma
Contempla satisfeito o mundo.

Do que alcançou não mais duvida;
Não mais lamenta o que perdeu.
Sabe que envelhecer é seu
Caminho para a despedida.

Na derradeira luz do dia
É que a paisagem se libera;
E o homem ama a vida à vera
Quando, no escuro, a renuncia.

Trad. André Vallias




Com licença poética [Adélia Prado]

Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Retrato [Cecília Meireles]

 

Cecília Meireles

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Soneto de Fidelidade [Vinicius de Moraes]


De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Sabiá [Chico Buarque de Holanda]

Chico Buarque de Holanda

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
(Cantar uma sabiá)

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De uma palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor
Talvez possa espantar
As noites que eu não queria
E anunciar o dia

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá, é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
(Cantar uma sabiá)

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
E é pra ficar
Sei que o amor existe
Eu não sou mais triste
E que a nova vida
Já vai chegar
E que a solidão
Vai se acabar
Hei de ouvir cantar
Uma sabiá

Terra das Palmeiras [Taiguara]

Taiguara 

Sonhada terra das palmeiras
Onde andará teu sabiá?
Terá ferida alguma asa?
Terá parado de cantar?

Sonhada terra das palmeiras
Como me dói meu coração
Como me mata o teu silêncio
Como estás só na escuridão

Ah! Minha amada amordaçada
De amor forçado a se calar
Meu peito guarda o sangue em pranto
Que ainda por ti, vou derramar

Ah! Minha amada amortalhada
Das mãos do mal vou te tirar
P'ra dançar danças de outras terras
E em outras línguas te acordar ...
E em outras línguas te acordar...
E de outras terras te acordar...
Amada minha te acordar...
Querida minha te acordar...
Em outras línguas te acorda
Ah,ah, ah,ah...


21 outubro 2024


Nova canção do exílio [Ferreira Gullar]

Ferreira Gullar

Minha amada tem palmeiras
Onde cantam passarinhos
e as aves que ali gorjeiam
em seus seios fazem ninhos

Ao brincarmos sós à noite
nem me dou conta de mim:
seu corpo branco na noite
luze mais do que o jasmim

Minha amada tem palmeiras
tem regatos tem cascata
e as aves que ali gorjeiam
são como flautas de prata

Não permita Deus que eu viva
perdido noutros caminhos
sem gozar das alegrias

que se escondem em seus carinhos
sem me perder nas palmeiras
onde cantam os passarinhos

Canção do Exílio [Casimiro de Abreu]

Casimiro de Abreu

Se eu tenho de morrer na flor dos anos
Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!

Meu Deus, eu sinto e tu bem vês que eu morro
Respirando este ar;
Faz que eu viva, Senhor! dá-me de novo
Os gozos do meu lar!

O país estrangeiro mais belezas
Do que a pátria não tem;
E este mundo não vale um só dos beijos
Tão doces duma mãe!

Dá-me os sítios gentis onde eu brincava
Lá na quadra infantil;
Dá que eu veja uma vez o céu da pátria,
O céu do meu Brasil!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos
Meu Deus! não seja já!
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!

Quero ver esse céu da minha terra
Tão lindo e tão azul!
E a nuvem cor-de-rosa que passava
Correndo lá do sul!

Quero dormir à sombra dos coqueiros,
As folhas por dossel;
E ver se apanho a borboleta branca,
Que voa no vergel!

Quero sentar-me à beira do riacho
Das tardes ao cair,
E sozinho cismando no crepúsculo
Os sonhos do porvir!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
A voz do sabiá!

Quero morrer cercado dos perfumes
Dum clima tropical,
E sentir, expirando, as harmonias
Do meu berço natal!

Minha campa será entre as mangueiras,
Banhada do luar,
E eu contente dormirei tranqüilo
À sombra do meu lar!

As cachoeiras chorarão sentidas
Porque cedo morri,
E eu sonho no sepulcro os meus amores
Na terra onde nasci!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!

Europa, França e Bahia [Carlos Drummond de Andrade]

Carlos Drummond de Andrade

Meus olhos brasileiros sonhando exotismos.
Paris. A torre Eiffel alastrada de antenas como um caranguejo.
Os cais bolorentos de livros judeus
e a água suja do Sena escorrendo sabedoria.

O pulo da Mancha num segundo.
Meus olhos espiam olhos ingleses vigilantes nas docas.

Tarifas bancos fábricas trustes craques.
Milhões de dorsos agachados em colônias longínquas formam um tapete
para sua Graciosa Majestade Britânica pisar.
E a lua de Londres como um remorso.

Submarinos inúteis retalham mares vencidos.
O navio alemão cauteloso exporta dolicocéfalos arruinados.
Hamburgo, umbigo do mundo.
Homens de cabeça rachada cismam em rachar a cabeça dos outros
dentro de alguns anos.

A Itália explora conscienciosamente vulcões apagados,
vulcões que nunca estiveram acesos
a não ser na cabeça de Mussolini.
E a Suíça cândida se oferece
numa coleção de postais de altitudes altíssimas.

Meus olhos brasileiros se enjoam da Europa.

Não há mais Turquia
O impossível dos serralhos esfacela erotismos prestes a deslanchar.
Mas a Rússia tem as cores da vida.
A Rússia é vermelha e branca.
Sujeitos com um brilho esquisito nos olhos criam o filme bolchevista
e no túmulo de Lenin em Moscou parece que um coração enorme
está batendo, batendo
mas não bate igual ao da gente...

Chega!
Meus olhos brasileiros se fecham saudosos.
Minha boca procura a "canção do exílio".
Como era mesmo a "canção do exílio"?
Eu tão esquecido de minha terra...
Ai terra que tem palmeiras
Onde canta o sabiá! e dificil

Canto de regresso à pátria [Oswald de Andrade]

Oswald de Andrade


Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá

Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra

Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá

Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo

Uma canção [Mario Quintana]

Mario Quintana

Minha terra não tem palmeiras... 
E em vez de um mero sabiá, 
Cantam aves invisíveis
Nas palmeiras que não há.

Minha terra tem relógios,
Cada qual com sua hora
Nos mais diversos instantes...
Mas onde o instante de agora?

Mas onde a palavra "onde"?
Terra ingrata, ingrato filho,
Sob os céus da minha terra
Eu canto a Canção do Exílio!

Canção do exílio [Murilo Mendes]

Murilo Mendes

Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam  gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá con certidão de idade!

Outra Canção do Exílio [Eduardo Alves da Costa]

Eduardo Alves da Costa

Minha terra tem Palmeiras,
Corinthians e outros times
de copas exuberantes
que ocultam muitos crimes.
As aves que aqui revoam
são corvos do nunca mais,
a povoar nossa noite
com duros olhos de açoite
que os anos esquecem jamais.

Em cismar sozinho, ao relento,
sob um céu poluído, sem estrelas,
nenhum prazer tenho eu cá;
porque me lembro do tempo
em que livre na campina
pulsava meu coração, voava,
como livre sabiá; ciscando
nas capoeiras, cantando
nos matagais, onde hoje a morte
tem mais flores, nossa vida
mais terrores, noturnos,
de mil suores fatais.

Minha terra tem primores,
requintes de boçalidade,
que fazem da mocidade
um delírio amordaçado:
acrobacia impossível
de saltimbanco esquizóide,
equilibrado no risível sonho
de grandeza que se esgarça e rompe,
roído pelo matreiro cupim da safadeza.

Minha terra tem encantos
de recantos naturais,
praias de areias monazíticas,
subsolos minerais
que se vão e não voltam mais.
 
A chorar sozinho, aflito,
penso, medito e reflito,
sem encontrar solução;
a não ser voar para dentro,
voltar as costas à miséria,
à doença e ao sofrimento,
que transcendem o quanto possam
o pensamento conceber
e a consciência suportar.

Minha terra tem palmeiras
a baloiçar, indiferentes
aos poetas dementes
que sonham de olhos abertos
a rilhar os dentes.
 
Não permita Deus que eu morra
pelo crime de estar atento;
e possa chegar à velhice
com os cabelos ao vento
de melhor momento.
Que eu desfrute os primores
do canto do sabiá,
onde gorjeia a liberdade
que não encontro por cá. 

Canção do exílio [Gonçalves Dias]

Gonçalves Dias

Minha terra tem palmeiras
Onde canta o Sabiá,
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho, à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

04 julho 2019

Poema de sete faces (e outras faces)


O Poema de sete faces abre o primeiro livro de poesias de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1930. O poema é uma espécie de certidão de nascimento do eu lírico e nele estão presentes alguns temas que serão constantes na poesia do poeta mineiro.



Sendo extremamente conhecido, não é de se estranhar que o poema tenha sido referenciado e parodiado, seja por grandes artistas, seja por anônimos da internet. Abaixo, trago o poema original e algumas releituras e paródias deste texto tão fascinante.




Poema de sete faces

Carlos Drummond de Andrade

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.


Poem of Seven Faces 

Carlos Drummond de Andrade

When I was born, a twisted angel,
one of those who live in the shadow,
said: Go, Carlos! be gauche in life.

The houses spy on men
who chase after women.
The evening might have been blue,
had there not been so many desires.

The streetcar passes by full of legs:
white, black, yellow legs.
My God, my heart asks, why so many legs?
And yet my eyes
question nothing.

The man behind the mustache
is serious, simple and strong.
He seldom talks.
He has a few, rare friends
the man behind the glasses and the mustache.

My Lord, why did you abandon me
since you knew that I wasn't God
since you knew that I was weak.

World, world, vast world,
if my name was Twirled
it'd be a rhyme, it wouldn't be a solution.
World, world, vast world,
even vaster is my heart.

I shouldn't tell you
but this moon
but this cognac
shake a person up like hell

Disponível em: <http://www.rosangelaliberti.recantodasletras.com.br/blog.php?idb=5055>. Acesso em: 04 jul. 2019.


Com licença poética

Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Disponível em: <http://www.rosangelaliberti.recantodasletras.com.br/blog.php?idb=5055>. Acesso em: 04 jul. 2019.


Até o fim

Chico Buarque

Quando nasci veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim

Inda garoto deixei de ir à escola
Cassaram meu boletim
Não sou ladrão, eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clarim
Um bom futuro é o que jamais me esperou
Mas vou até o fim

Eu bem que tenho ensaiado um progresso
Virei cantor de festim
Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso
Em Quixeramobim
Não sei como o maracatu começou
Mas vou até o fim

Por conta de umas questões paralelas
Quebraram meu bandolim
Não querem mais ouvir as minhas mazelas
E a minha voz chinfrim
Criei barriga, minha mula empacou
Mas vou até o fim

Não tem cigarro, acabou minha renda
Deu praga no meu capim
Minha mulher fugiu com o dono da venda
O que será de mim?
Eu já nem lembro pronde mesmo que vou
Mas vou até o fim

Como já disse era um anjo safado
O chato dum querubim
Que decretou que eu tava predestinado
A ser todo ruim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim

Disponível em: <http://tagarelicesoblog.blogspot.com/2011/11/mais-intertextualidade-o-anjo-torto-e.html>. Acesso em: 04 jul. 2019.


Poema de oito de março (Releitura: poema de sete faces)

Leticia Begnini

Quando nasci, um anjo determinado
 desses que não vivem na sombra me disse
Vai, mulher! Ser luta na vida

As casas perdoam os homens que
correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse roxa,
não houvesse tantos preceitos

O bonde passa cheio de pernas inadequadadas
pernas brancas pretas amarelas
Pra que tanta perna, meu deus, pergunta meu coração
Meus olhos, baixos, porem não perguntam nada

O homem atrás do bigode é sério,
incisivo e forte.
Quase não conversa. Tem muito,
imenso apoio dos amigos.

O abuso atrás dos sorrisos e do bigode.

Meu Deus, por que me enfeitaste
se sabias que eu não era como Eles
se sabias que eu pareceria frágil.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria ouvida, seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essas flores
mas esses cartazes
botam a gente indignada como o diabo.

Disponível em: <https://procurasepalavras.wixsite.com/procura-se-palavras/single-post/2017/03/08/Poema-de-oito-de-mar%C3%A7o-Releitura-poema-de-sete-faces>. Acesso em: 04 jul. 2019.


Poema de sete faces - Paródia

Gertrudes

Quando nasci, um anjo caído e esquisito,
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Gertrudes! ser inconstante na vida.

As abrigos espiam as meninas
que correm atrás de bonecas.
Para serem como elas,
Cabelos loiros e corpo escultural.

A lotação passa cheia de pés:
pés com tênis, chinelos ou descalços.
Para que tanta diferença, meu Deus, pergunto-me baixinho.
Porém meus tênis,
continuam nos meus pés.

A mulher atrás dos óculos
é sorridente, bonita e forte.
Quase não chora.
Tem muitos amigos
a mulher atrás dos óculos e do sorriso,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraca.

Coração, coração, vasto coração,
se eu me chamasse Conceição
seria uma rima, não seria uma solução.
Coração, coração, vasto coração,
mais vasta é a minha ilusão.

Eu não devia lhe dizer
mas esse tédio
mas esse mundo
botam-me mais cinza que o diabo.

Disponível em: <http://aspulsacoes.blogspot.com/2010/01/poema-de-sete-faces-parodia.html>. Acesso em: 04 jul. 2019.


Paródia tendo por base o poema de Sete Faces de Drummond (1930)

Nayara Soutilha

Quando nasci, um anjo anômalo
desses que vivem na irregularidade
disse: Vai, Nay! Desce e samba na cara da sociedade.

Às vezes me conheço e desconheço
sou como o tempo
posso mudar a qualquer momento.

As pessoas com seus tons variados
essa diversidade é encantadora,
cada um com seu próprio DNA e sua tão ilusória retina.
Mas me pergunto, meu Deus, por que há o preconceito?
Já que somos a mistura de tudo e todos!

O homem atrás do corpo ideal
e as mulheres da perfeição.
Tudo isso é desnecessário, ser você mesmo é o ideal.

Quero mais sacanagem, mais pro atividade,
mais aventura, mais certezas e menos não sei!
Será possível meu Deus?

Mundo imenso esse que nós habitamos.
Mundo esse cheio de segredos.
Esse mundo é tão louco quanto a minha própria loucura.

Eu não devia te dizer isso
Mas essa pizza com cheddar
mais essa coca-cola
está tão bom quanto pintar com “lukscolor”.

Disponível em: <https://anomalians.tumblr.com/post/113560403261/par%C3%B3dia-tendo-por-base-o-poema-de-sete-faces-de/amp>. Acesso em: 04 jul. 2019.