22 agosto 2016

Literatura: Modernismo 2ª Geração - A Prosa Regionalista [vídeos]


A booktuber Isabella Lubrano é jornalista formada pela USP e pela Cásper Líbero. Em seu canal Ler Antes de Morrer ela comenta, principalmente, clássicos da literatura. Abaixo, vídeos relacionados à prosa modernista da 2ª geração.

1934 - São Bernardo, de Graciliano Ramos

1936 - Mar Morto, de Jorge Amado

1937 - Capitães da Areia, de Jorge Amado


1938 - Vidas Secas, de Graciliano Ramos


1949-1961 - Comentário sobre a trilogia O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo


1949 - O Tempo e o Vento Vol. I: O Continente I, de Érico Veríssimo




21 agosto 2016

10 Curiosidades sobre Carlos Drummond de Andrade

Foto: Carlos Drummond de Andrade

1 . Nasceu em Itabira, Minas Gerais


Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
— Trecho do poema Confidência do Itabirano

O poeta nasceu a 31 de outubro de 1902, em Itabira, a 110 Km de Belo horizonte. "Na região está a maior mina de minério de ferro a céu aberto do mundo. Em 1942, Itabira também viu nascer a Vale Do Rio Doce - a segunda maior minerado do mundo e maior produtora mundial de minério de ferro. Mais de 90% da economia do município, direta ou indiretamente, giram em torno da companhia." [1]

"A Fazenda do Pontal, que pertenceu à família do poeta, foi comprada pela empresa. Itabira aparece diversas vezes na obra de Drummond - ora nos poemas que relembram a infância, ora nas comparações da vida da grande cidade (Rio de Janeiro) com o mundo onde ele cresceu (Itabira)." [1]

2. Foi expulso do colégio


Quando tinha 15 anos, Estudou na capital mineira e depois em um colégio jesuíta de Nova Friburgo (RJ). Foi lá onde publicou seu primeiro texto, em 14 de abril de 1918, no jornal do colégio. Um ano depois, foi expulso por 'insubordinação mental', após uma briga com seu professor de Português. Ele não pôde se despedir de ninguém e teve de deixar o colégio durante a madrugada.

Mais tarde, em sua autobiografia, Drummond afirmou: 'Perdi a fé. Perdi tempo. E sobretudo perdi a confiança na justiça daqueles que me julgavam'. Ao jornalista Geneton Morais, naquela que seria sua última entrevista, disse: 'Não tenho trauma, não. Já falei tanto mal dos padres que me expulsaram, já esculhambei tanto que hoje estamos quites'. [1] [2]

3. Foi funcionário público

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!
— Trecho do poema Confidência do Itabirano

Drummond foi funcionário público por mais de 40 anos. Ocupou cargos no Ministério da Educação e da Saúde Pública, entre outros. Durante seu período no MEC, na década de 1940, acompanhou a construção do Palácio Gustavo Capanema, sede do Ministério e símbolo do modernismo brasileiro. "O projeto foi feito por uma equipe formada, entre outros, por Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Afonso Eduardo Reidy, Burle Marx e Le Corbusier, importantes nomes na arquitetura mundial." [1]

4. Foi jornalista

Há 64 anos, um adolescente fascinado por papel impresso notou que, no andar térreo do prédio onde morava, um placar exibia a cada manhã a primeira página de um jornal modestíssimo, porém jornal. Não teve dúvida. Entrou e ofereceu os seus serviços ao diretor, que era, sozinho, todo o pessoal da redação. O homem olhou-o, cético, e perguntou:
— Sobre o que pretende escrever?
— Sobre tudo. Cinema, literatura, vida urbana, moral, coisas deste mundo e de qualquer outro possível. [3]
— Trecho de Ciao, última crônica publicada por Carlos Drummond de Andrade

Paralelamente ao trabalho burocrático, desenvolveu uma carreira como cronista e jornalista, com a qual teve uma relação muito próxima. Foi, por exemplo, repórter do Correio da Manhã. Ao jornalista Geneton Morais, disse: "O jornalismo é uma forma de literatura. Eu, pelo menos, convivi - e mil escritores conviveram - como uma forma de jornalismo que me parece muito afeiçoada à criação literária: a crônica".

De outubro de 1969 a setembro de 1984, escreveu crônicas no Jornal do Brasil. Escrevia às terças, quintas e sábados. Drummond também escreveu contos. Publicou, ao todo, 20 livros de crônicas e contos". [1]

5. Escreveu o melhor poema brasileiro de todos os tempos

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa, 
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos 
que era pausado e seco; e aves pairassem 
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia. [10]
— Trecho do poema A Máquina do Mundo de Carlos Drummond de Andrade

"Este poema foi escolhido como o melhor poema brasileiro de todos os tempos por um grupo significativo de escritores e críticos, a pedido do caderno 'MAIS' (edição de 02-01-2000), publicado aos domingos pelo jornal 'Folha de São Paulo'”. [10]

Escrito em 1952 em decassílabos brancos e publicado originalmente no livro Claro Enigma, o texto é "a retomada de um célebre episódio de 'Os Lusíadas', de Luís de Camões. Nele, tal como acontece a Vasco da Gama, a totalidade do Universo se apresenta à visão do narrador -que, no entanto, desencantado, lhe dá as costas". [11]

6. Traduziu músicas da banda The Beatles

Desde sempre te amei
e bem sabes que ainda te amo.
Devo esperar toda a vida?
Se quiseres — esperarei. [7]
— Trecho de I Will, em tradução de Carlos Drummond de Andrade

A edição de março de 1969 da revista Realidade trouxe seis músicas da banda britânica The Beatles traduzidas por Drummond. The White Album , lançado quatro meses antes e sucessor de Sgt. Peppers, trazia uma música que, nas emissoras de rádio, era apresentada como pornográfica: Why Don’t We Do It in the Road? No one will be watching us. [Por que não fazemos na estrada? Ninguém vai nos ver.]

"Foi então que os editores da saudosa revista Realidade, que circulou mensalmente por dez anos, entre 1966 e 1976, teve a mãe de todas as ideias: mergulhar nas letras do novo álbum e explicá-las. Para essa empreitada era preciso alguém de pena leve, elegante, especial, insuspeito. E convidaram um dos maiores poetas brasileiros, para muitos o maior, para traduzir seis músicas. E lá foi Carlos Drummond de Andrade decifrar os Beatles". [7]

As canções traduzidas são: Ob-La-Di, Ob-La-Da; Piggies; Why don't we do it in the road?; I Will; Blackbird e Happiness is a warm gun. Durante sua carreira, Drummond também traduziu diversos livros para o português. Autores como Marcel Proust, Balzac e García Lorca foram alguns dos autores estrangeiros que o poeta traduziu. [1]

7. Era fã de Chico Buarque

Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo que amava Juca que amava Dora que amava 
Carlos amava Dora que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava
Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha [12]
— Trecho a música Flor da Idade, em que Chico Buarque faz referência ao poema Quadrilha, de Drummond

"Gosto de Noel, de Caetano, de Gilberto Gil. E também do Tom Jobim. É difícil dizer assim de cabeça, mas tem muita gente boa", disse Drummond em entrevista ao jornalista Zuenir Ventura. "Gosto de Chico Buarque, nem é preciso dizer, com quem me sinto muito identificado." Chico Buarque, em 1975, escreveu o musical Gota D´Água, com Paulo Pontes. Uma das músicas, que ficou muito famosa depois, é Flor da Idade - "Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava..." - uma referência direta ao poema Quadrilha, de Drummond: "João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria...". [1]

8. Morreu doze dias após a filha

O filho que não fiz
hoje seria homem.
Ele corre na brisa,
sem carne, sem nome. [5]
— Trecho do poema Ser, de Carlos Drummond de Andrade

Drummond morreu em 17 de agosto de 1987, doze dias após a morte de sua única filha, Maria Julieta, aos 59 anos. Aos 25 anos, drummond perdeu seu primeiro filho, Carlos Flávio, falecido poucos meses após o nascimento. Drummond faleceu de ataque cardíaco no dia 17 de agosto. "Pai e filha chegaram a travar uma disputa para ver quem morreria primeiro. Assim, o primeiro não sofreria com a perda do outro. No velório de Maria Julieta, Drummond disse a um amigo: 'Isto não está certo, ela deveria ficar para fechar os meus olhos'". [1] [4]

9. Deixou poemas inéditos após a morte

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica. [6]
— Trecho do poema A bunda, que engraçada

Drummond foi casado por 62 anos com Dolores Dutra de Morais. Porém, durante 36 anos, Lygia Fernandes, 25 anos mais jovem que o poeta, e Drummond namoraram (como eles preferiam chamar o caso extraconjugal). Se conheceram, em 1951, no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, onde trabalhavam. Eles se viam todos os dias, mesmo depois de o poeta se aposentar. Drummond fez várias poesias para ela e deixou, pelo menos, três livros de poemas inéditos, além de manuscritos de Lição de Coisas e Boitempo. Lygia morreu em 2003 e seus familiares recolheram o material. Até hoje se recusam a divulgá-lo. Um tesouro perdido. [1]


Drummond é um dos nomes mais consagrados da poesia modernista, que se categoriza, entre outras coisas, por seus versos livres e a temática mais ligada ao social.

10. Há uma escultura dele na Orla de Copacabana

Homenagem da cidade do Rio de Janeiro ao Centenário do poeta Carlos Drummond de Andrade. Obra em bronze mais famosa do artista, instalada na orla de Copacabana, é o segundo monumento público mais visitado da cidade, perdendo apenas para o Cristo Redentor. [8]


O mineiro Leo Santana foi quem esculpiu em bronze a estátua de Drummond que fica no calçadão de Copacabana, nas imediações do Posto 6, no Rio de Janeiro.

"A estátua pesa cerca de 150 quilos, foi feita para retratar um momento rotineiro da vida de Drummond, a partir de registro fotográfico feito por Rogério Reis. Sua inauguração se deu em meio às homenagens ao centenário do poeta (2002) que, embora mineiro, passou parte significativa de sua vida no Rio de Janeiro".  [9]

Foto: À esquerda, estátua de Drummond. À direita, o poeta em Copacabana.

Referências: 
[1] http://educarparacrescer.abril.com.br/leitura/13-curiosidades-carlos-drummond-andrade-690935.shtml. Acesso em: 21 ago. 2016.

[2] http://www.pactoaudiovisual.com.br/mestres_final/drummond/vida_e_obra.htm. Acesso em: 21 ago. 2016.

[3] http://www.revistabula.com/4103-a-ultima-cronica-de-drummond/. Acesso em: 21 ago. 2016.

[4] http://jornalfolhadenegocios.blogspot.com.br/2012/08/10-curiosidades-sobre-carlos-drummond.html. Acesso em: 21 ago. 2016.

[5] http://www.angelfire.com/celeb/olobo/ser.html. Acesso em: 21 ago. 2016.

[6] http://tipografos.net/pdf/drumond.pdf. Acesso em: 21 ago. 2016.

[7] http://cultura.estadao.com.br/blogs/sonoridades/drummond-o-poeta-que-decifrou-os-beatles/. Acesso em: 21 ago. 2016.

[8] http://postozero.com/ar-livre/pontos-de-interesse/estatua/estatua-de-carlos-drumond-andrade. Acesso em: 21 ago. 2016.

[9] http://www.wikirio.com.br/Est%C3%A1tua_de_Carlos_Drummond_de_Andrade. Acesso em: 21 ago. 2016.

[10] http://www.releituras.com/drummond_amaquina.asp. Acesso em: 21 ago. 2016.


[12] https://www.letras.mus.br/chico-buarque/84969/. Acesso em: 21 ago. 2016.




20 agosto 2016


16 junho 2016


Macunaíma, de Mário de Andrade - Capítulo I

I - Macunaíma


   No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói da nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma.
   Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar exclamava:
   – Ai! que preguiça!...
   e não dizia mais nada. Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros e principalmente os dois manos que tinha, Maanape já velhinho e Jiguê na força do homem. O divertimento dele era decepar cabeça de saúva. Vivia deitado mas si punha os olhos em dinheiro, Macunaíma dandava pra ganhar vintém. E também espertava quando a família ia tomar banho no rio, todos juntos e nus. Passava o tempo do banho dando mergulho, e as mulheres soltavam gritos gozados por causa dos guaiamuns diz-que habitando a água-doce por lá. No mocambo si alguma cunhatã se aproximava dele pra fazer festinha, Macunaíma punha a mão nas graças dela, cunhatã se afastava. Nos machos guspia na cara. Porém respeitava os velhos e freqüentava com aplicação a murua a poracê o torê o bacororô a cucuicogue, todas essas danças religiosas da tribo.
   Quando era pra dormir trepava no macuru pequeninho sempre se esquecendo de mijar. Como a rede da mãe estava por debaixo do berço, o herói mijava quente na velha, espantando os mosquitos bem. Então adormecia sonhando palavras-feias, imoralidades estrambólicas e dava patadas no ar.
   Nas conversas das mulheres no pino do dia o assunto era sempre as peraltagens do herói. As mulheres se riam, muito simpatizadas, falando que “espinho que pinica, de pequeno já traz ponta”, e numa pajelança Rei Nagô fez um discurso e avisou que o herói era inteligente.
   Nem bem teve seis anos deram água num chocalho pra ele e Macunaíma principiou falando como todos. E pediu pra mãe que largasse da mandioca ralando na cevadeira e levasse ele passear no mato. A mãe não quis porque não podia largar da mandioca não. Macunaíma choramingou dia inteiro. De-noite continuou chorando. No outro dia esperou com o olho esquerdo dormindo que a mãe principiasse o trabalho. Então pediu pra ela que largasse de tecer o paneiro de guarumá-membeca e levasse ele no mato passear. A mãe não quis porque não podia largar o paneiro não. E pediu pra nora, companheira de Jiguê, que levasse o menino. A companheira de Jiguê era bem moça e chamava Sofará. Foi se aproximando ressabiada porém desta vez Macunaíma ficou muito quieto sem botar a mão na graça de ninguém. A moça carregou o piá nas costas e foi até o pé de aninga na beira do rio. A água parara pra inventar um ponteio de gozo nas folhas do javari. O longe estava bonito com muitos biguás e biguatingas avoando na entrada do furo. A moça botou Macunaíma na praia porém ele principiou choramingando, que tinha muita formiga!... e pediu pra Sofará que o levasse até o derrame do morro lá dentro do mato. A moça fez. Mas assim que deitou o curumim nas tiriricas, tajás e trapoerabas da serrapilheira, ele botou corpo num átimo e ficou um príncipe lindo. Andaram por lá muito.
   Quando voltaram pra maloca a moça parecia muito fatigada de tanto carregar piá nas costas. Era que o herói tinha brincado muito com ela... Nem bem ela deitou Macunaíma na rede, Jiguê já chegava de pescar de puçá e a companheira não trabalhara nada. Jiguê enquizilou e depois de catar os carrapatos deu nela muito. Sofará agüentou a sova sem falar um isto.
   Jiguê não desconfiou de nada e começou trançando corda com fibra de curauá. Não vê que encontrara rasto fresco de anta e queria pegar o bicho na armadilha. Macunaíma pediu um pedaço de curauá pro mano porém Jiguê falou que aquilo não era brinquedo de criança. Macunaíma principiou chorando outra vez e a noite ficou bem difícil de passar pra todos.
   No outro dia Jiguê levantou cedo pra fazer armadilha e enxergando o menino tristinho falou:
   – Bom-dia, coraçãozinho dos outros.
   Porém Macunaíma fechou-se em copas carrancudo.
   – Não quer falar comigo, é?
   – Estou de mal.
   – Por causa?
   Então Macunaíma pediu fibra de curauá. Jiguê olhou pra ele com ódio e mandou a companheira arranjar fio pro menino. A moça fez. Macunaíma agradeceu e foi pedir pro pai-de-terreiro que trançasse uma corda pra ele e assoprasse bem nela fumaça de petum.
   Quando tudo estava pronto Macunaíma pediu pra mãe que deixasse o cachiri fermentando e levasse ele no mato passear. A velha não podia por causa do trabalho mas a companheira de Jiguê mui sonsa falou pra sogra que “estava às ordens”. E foi no mato com o piá nas costas.
   Quando o botou nos carurus e sororocas da serrapilheira, o pequeno foi crescendo foi crescendo e virou príncipe lindo. Falou pra Sofará esperar um bocadinho que já voltava pra brincarem e foi no bebedouro da anta armar um laço. Nem bem voltaram do passeio, tardinha, Jiguê já chegava também de prender a armadilha no rasto da anta. A companheira não trabalhara nada. Jiguê ficou fulo e antes de catar os carrapatos bateu nela muito. Mas Sofará agüentou a coça com paciência.
   No outro dia a arraiada inda estava acabando de trepar nas árvores, Macunaíma acordou todos, fazendo um bué medonho, que fossem! que fossem no bebedouro buscar a bicha que ele caçara!... Porém ninguém não acreditou e todos principiaram o trabalho do dia.
   Macunaíma ficou muito contrariado e pediu pra Sofará que desse uma chegadinha no bebedouro só pra ver. A moça fez e voltou falando pra todos que de-fato estava no laço uma anta muito grande já morta. Toda a tribo foi buscar a bicha, matutando na inteligência do curumim. Quando Jiguê chegou com a corda de curauá vazia, encontrou todos tratando da caça. Ajudou. E quando foi pra repartir não deu nem um pedaço de carne pra Macunaíma, só tripas. O herói jurou vingança.
   No outro dia pediu pra Sofará que levasse ele passear e ficaram no mato até a boca-da-noite. Nem bem o menino tocou no folhiço e virou num príncipe fogoso. Brincaram. Depois de brincarem três feitas, correram mato fora fazendo festinhas um pro outro. Depois das festinhas de cotucar, fizeram a das cócegas, depois se enterraram na areia, depois se queimaram com fogo de palha, isso foram muitas festinhas. Macunaíma pegou num tronco de copaíba e se escondeu por detrás da piranheira. Quando Sofará veio correndo, ele deu com o pau na cabeça dela. Fez uma brecha que a moça caiu torcendo de riso aos pés dele. Puxou-o por uma perna. Macunaíma gemia de gosto se agarrando no tronco gigante. Então a moça abocanhou o dedão do pé dele e engoliu. Macunaíma chorando de alegria tatuou o corpo dela com o sangue do pé. Depois retesou os músculos, se erguendo num trapézio de cipó e aos pulos atingiu num átimo o galho mais alto da piranheira. Sofará trepava atrás. O ramo fininho vergou oscilando com o peso do príncipe. Quando a moça chegou também no tope eles brincaram outra vez balanceando no céu. Depois de brincarem Macunaíma quis fazer uma festa em Sofará. Dobrou o corpo todo na violência dum puxão mas não pôde continuar, galho quebrou e ambos despencaram aos emboléus até se esborracharem no chão. Quando o herói voltou da sapituca procurou a moça em redor, não estava. Ia se erguendo pra buscá-la porém do galho baixo em riba dele furou o silêncio o miado temível da suçuarana. O herói se estatelou de medo e fechou os olhos pra ser comido sem ver. Então se escutou um risinho e Macunaíma tomou com uma gusparada no peito, era a moça. Macunaíma principiou atirando pedras nela e quando feria, Sofará gritava de excitação tatuando o corpo dele embaixo com o sangue espirrado. Afinal uma pedra lascou o canto da boca da moça e moeu três dentes. Ela pulou do galho e juque! tombou sentada na barriga do herói que a envolveu com o corpo todo, uivando de prazer. E brincaram mais outra vez.
   Já a estrela Papaceia brilhava no céu quando a moça voltou parecendo muito fatigada de tanto carregar piá nas costas. Porém Jiguê desconfiando seguira os dois no mato, enxergara a transformação e o resto. Jiguê era muito bobo. Teve raiva. Pegou num rabo-de-tatu e chegou-o com vontade na bunda do herói. O berreiro foi tão imenso que encurtou o tamanhão da noite e muitos pássaros caíram de susto no chão e se transformaram em pedra.
   Quando Jiguê não pôde mais surrar, Macunaíma correu até a capoeira, mastigou raiz de cardeiro e voltou são. Jiguê levou Sofará pro pai dela e dormiu folgado na rede.

Comentários:

Publicado em 1928, com base em pesquisas e viagens pelo Brasil feitas por Mário, Macunaíma foi chamado por Mário de Andrade de rapsódia. Abaixo, veja o que diz o crítico Massaud Moisés a respeito do termo:
Rapsódia designava, na Grécia Antiga, a recitação de fragmentos de poemas épicos, notadamente herméticos, pelos rapsodos, poetas ou declamadores ambulantes, que iam de cidade a cidade, propagando a Ilíada e a Odisseia. Surgidos provavelmente no século VII a.C., os rapsodos não recitavam composições próprias e dispensavam o acompanhamento da lira.
Adotado por alguns compositores nos séculos XIX e XX, para assinalar toda peça musical permeada de emoção e melodia, ou a utilização livre de temas populares para piano e orquestra, o vocábulo "rapsódia" equivale, nos domínios literários, a compilação, numa mesma obra, de temas ou assuntos heterogêneos e de vária origem. Macunaíma (1928), de Mário de Andrade, constitui a rapsódia das principais lendas afro-indígenas que compõem o substrato folclórico brasileiro.
MOISÉS, Massaud. Dicionário de Termos Literários. 12 ed. rev. e ampl. — São Paulo: Cultrix, 2004. pág. 378. (adaptado)
Pensando nessa ligação entre o romance e a música, a cantora e compositora Iara Rennó, lançou em 2008 o cd Macunaó.peraí.matupi ou Macunaíma Ópera Tupi.


Abaixo, duas das músicas do álbum. 






Arte Moderna - Revista Klaxon


Abaixo os links para baixar as edições da revista Klaxon:

1. Klaxon : mensário de arte moderna, n. 01, mai. 1922

2. Klaxon : mensário de arte moderna, n. 02, jun. 1922

3. Klaxon : mensário de arte moderna, n. 03, jul. 1922

4. Klaxon : mensário de arte moderna, n. 04, ago. 1922

5. Klaxon : mensário de arte moderna, n. 05, set. 1922

6. Klaxon : mensário de arte moderna, n. 06, out. 1922

7. Klaxon : mensário de arte moderna, n. 07, nov. 1922

8 e 9. Klaxon : mensário de arte moderna, n. 08/09, dez. 1922/jan. 1923

As revistas foram disponibilizadas pela Biblioteca Brasiliana da USP.



24 maio 2016

Conto: Gaetaninho, de Alcântara Machado


Por Alcântara Machado

– Xi, Gaetaninho, como é bom!
Gaetaninho ficou banzando bem no meio da rua. O Ford quase o derrubou e ele não viu o Ford. O carroceiro disse um palavrão e ele não ouviu o palavrão.
– Eh! Gaetaninho Vem pra dentro.
Grito materno sim : até filho surdo escuta. Virou o rosto tão feio de sardento, viu a mãe e viu o chinelo.
– Subito!
Foi-se chegando devagarinho, devagarinho. Fazendo beicinho. Estudando o terreno. Diante da mãe e do chinelo parou. Balançou o corpo. Recurso de campeão de futebol. Fingiu tomar a direita. Mas deu meia volta instantânea e varou pela esquerda porta adentro.
Eta salame de mestre!
Ali na Rua Oriente a ralé quando muito andava de bonde. De automóvel ou carro só mesmo em dia de enterro. De enterro ou de casamento. Por isso mesmo o sonho de Gaetaninho era de realização muito difícil. Um sonho.
O Beppino por exemplo. O Beppino naquela tarde atravessara de carro a cidade. Mas como? Atrás da Tia Peronetta que se mudava para o Araçá. Assim também não era vantagem.
Mas se era o único meio? Paciência.

Gaetaninho enfiou a cabeça embaixo do travesseiro.
Que beleza , rapaz! Na frente quatro cavalos pretos empenachados levavam a Tia Filomena para o cemitério. Depois o padre. Depois o Savério noivo dela de lenço nos olhos. Depois ele. Na boléia do carro. Ao lado do cocheiro. Com a roupa marinheira e o gorro branco onde se lia: ENCOURAÇADO SÃO PAULO.
Não. Ficava mais bonito de roupa marinheira mas com a palhetinha nova que o irmão lhe trouxera da fábrica. E ligas pretas segurando as meias. Que beleza, rapaz! Dentro do carro o pai, os dois irmãos mais velhos (um de gravata vermelha, outro de gravata verde) e o padrinho Seu Salomone. Muita gente nas calçadas, nas portas e nas janelas dos palacetes, vendo o enterro. Sobretudo admirando o Gaetaninho.
Mas Gaetaninho ainda não estava satisfeito. Queira ir carregando o chicote. O desgraçado do cocheiro não queria deixar. Nem por um instantinho só.
Gaetaninho ia berrar mas a Tia Filomena com mania de cantar o “Ahi, Mari!” todas as manhãs o acordou.
Primeiro ficou desapontado. Depois quase chorou de ódio.

Tia Filomena teve um ataque de nervos quando soube do sonho de Gaetaninho. Tão forte que ele sentiu remorsos. E para sossego da família alarmada com o agouro tratou logo de substituir a tia por outra pessoa numa nova versão de seu sonho. Matutou, matutou, e escolheu o acendedor da Companhia de Gás, seu Rubino, que uma vez lhe deu um cocre danado de doído.
Os irmãos (esses) quando souberam da história resolveram arriscar de sociedade quinhentão no elefante. Deu a vaca. E eles ficaram loucos de raiva por não haverem logo adivinhado que não podia deixar de dar a vaca mesmo.

O jogo na calçada parecia de vida ou morte. Muito embora Gaetaninho não estava ligando.
– Você conhecia o pai do Afonso, Beppino?
– Meu pai deu uma vez na cara dele.
– Então você não vai amanhã no enterro. Eu vou!
O Vicente protestou indignado:
– Assim não jogo mais ! O Gaetaninho está atraplhando!
Gaetaninho voltou para o seu posto de guardião. Tão cheio de responsabilidades.
O Nino veio correndo com a bolinha de meia. Chegou bem perto. Com o tronco arqueado, as pernas dobradas, os braços estendidos, as mãos abertas, Gaetaninho ficou pronto para a defesa.
– Passa pro Beppino!
Beppino deu dois passos e meteu o pé na bola. Com todo o muque. Ela cobriu o guardião sardento e foi parar no meio da rua.
– Vá dar tiro no inferno!
– Cala a boca, palestrino!
– Traga a bola!
Gaetaninho saiu correndo. Antes de alcançar a bola um bonde o pegou. Pegou e matou.
No bonde vinha o pai de Gaetaninho.
Agurizada assustada espalhou a notícia na noite.
– Sabe o Gaetaninho?
– Que é que tem?
– Amassou o bonde!
A vizinhança limpou com benzina suas roupas domingueiras.

Às dezesseis horas do dia seguinte saiu um enterro da Rua do Oriente e Gaetaninho não ia na boléia de nenhum dos carros do acompanhamento. Lá no da frente dentro de um caixão fechado com flores pobres por cima. Vestia a roupa marinheira, tinha as ligas, mas não levava a palhetinha.
Quem na boléia de um dos carros do cortejo mirim exibia soberbo terno vermelho que feria a vista da gente era o Beppino.




03 maio 2016

Autor: Augusto dos Anjos


Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (30 anos)
Poeta
* Sapé, PB (20/04/1884)
+ Leopoldina, MG (12/11/1914)

Vídeo: Augusto dos Anjos — Parte 01
Vídeo: Augusto dos Anjos — Parte 02
Vídeo: Augusto dos Anjos — Parte 03



Versos Íntimos
Augusto dos Anjos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!



02 maio 2016

Autor: Monteiro Lobato


José Bento Renato Monteiro Lobato (66 anos)
Escritor
* Taubaté, SP (18/04/1882)
+ São Paulo, SP (04/07/1948)

Vídeo do programa Globo Repórter de 1982: 100 anos de Monteiro Lobato

Vídeo do canal LiteratusTV no youTube:

COMENTÁRIO: os dois apresentadores não são especialistas na obra de Monteiro Lobato, mas parecem ter feito uma boa pesquisa para o programa. Vale a pena assistir ao vídeo para conhecer um pouco da vida e da obra do autor.

Série de vídeos discutindo os aspectos racistas na obra de Monteiro Lobato:

Vídeo 01: entrevista com Marisa Lajolo, professora da Unicamp e da Universidade Mackenzie — 28/09/2012


Vídeo 02: entrevista com o Frei David Raimundo dos Santos, da ONG Educafro — 28/07/2012


Vídeo 03: entrevista com João Luís Cardoso Ceccantini, professor do Departamento de Literatura da Faculdade da Unesp de Assis — 15/10/2012


Vídeo 04: entrevista com José Vicente, reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares — 15/10/2012

Decisão:
STF nega pedido para suspender livro de Monteiro Lobato em escolas públicas — 23/12/2014

Leituras Recomendadas:
1. Conto Urupês
2. Conto Jeca Tatu, a ressurreição
3. "O petróleo é nosso", as derradeiras palavras de Monteiro Lobato
4. Monteiro Lobato e o Partido Comunista do Brasil




13 abril 2016

Autor: Euclides da Cunha


Euclides Rodrigues da Cunha (43 anos)
Engenheiro, Jornalista e Escritor
* Cantagalo, RJ (20/01/1866)
+ Rio de Janeiro, RJ (15/08/1909)

Vídeo da série Literatura Fundamental:


O professor Leopoldo Bernucci, da Universidade da Califórnia Davis, fala sobre a vida e a obra do escritor Euclides da Cunha. O programa destaca o livro Os Sertões, que retrata a Guerra dos Canudos.
Descrição do vídeo na página do canal da Univesp TV no YouTube.



29 março 2016


18 março 2016

Antigamente II - Carlos Drummond de Andrade

 

Antigamente, os pirralhos dobravam a língua diante dos pais, e se um se esquecia de arear os dentes antes de cair nos braços de Morfeu, era capaz de entrar no couro. Não devia também se esquecer de lavar os pés, sem tugir nem mugir. Nada de bater na cacunda do padrinho, nem de debicar os mais velhos, pois levava tunda. Ainda cedinho, aguava as plantas, ia ao corte e logo voltava aos penates. Não ficava mangando na rua nem escapulia do mestre, mesmo que não entendesse patavina da instrução moral e cívica. O verdadeiro smart calçava botina de botões para comparecer todo liró ao copo-d’água, se bem que no convescote apenas lambiscasse, para evitar flatos. Os bilontras é que eram um precipício, jogando com pau de dois bicos, pelo que carecia muita cautela e caldo de galinha. O melhor era pôr as barbas de molho diante de treteiro de topete: depois de fintar e engambelar os coiós, e antes que se pusesse tudo em pratos limpos, ele abria o arco. O diacho eram os filhos da Candinha: quem somava a candongas acabava na rua da amargura, lá encontrando, encafifada, muita gente na embira, que não tinha nem para matar o bicho; por exemplo, o mão-de-defunto.

Bom era ter  costas quentes, dar as cartas com a faca e o queijo na mão; melhor ainda, ter uma caixinha de pós de perlimpimpim, pois isso evitava de levar a lata, ficar na pindaíba ou espichar a canela antes que Deus fosse servido. Qualquer um acabava enjerizado se lhe chegavam a urtiga no nariz, ou se o faziam de gato-sapato. Mas que regalo, receber de graça, no dia-de-reis, um capado! Ganhar vidro de cheiro marca barbante, isso não: a mocinha dava o cavaco. Às vezes, sem tirte nem guarte, aparecia o doutor pomada, todo cheio de nove horas; ia-se ver, debaixo de tanta farofa era um doutor da mula ruça, um pé-rapado, que espiga! E a moçoila, que começava a nutrir xodó por ele, que estava mesmo de rabicho, caía das nuvens. Quem queria lá fazer papel pança? Daí se perder as estribeiras por uma tutaméia, um alcaide que o caixeiro nos impingia, dando de pinga um cascão de goiabada.

Em compensação, viver não era sangria desatada, e até o Chico vir de baixo vosmecê podia provar uma abrideira que era o suco, ficando na chuva mesmo com bom tempo. Não sendo pexote, e soltando arame, que vida supimpa a do degas! Macacos me mordam se estou pregando peta. E os tipos que havia: o pau-para-toda-obra, o vira-casaca (este cuspia no prato em que comera), o testa-de-ferro, o sabe-com-quem-está falando, o sangue-de-barata, o Dr. Fiado que morreu ontem, o zé-povinho, o biltre, o peralvilho, o salta-pocinhas, o alferes, a polaca, o passador de nota falsa, o mequetrefe, o safardana, o maria-vai-com-as-outras... Depois de mil peripécias, assim ou assado, todo mundo acabava mesmo batendo com o rabo na cerca, ou, simplesmente, a bota, sem saber como descalçá-la.

Mas até aí  morreu Neves, e não foi no Dia de São Nunca de Tarde: foi vítima de pertinaz enfermidade que zombou de todos os recursos da ciência, e acreditam que a família nem sequer botou fumo no chapéu?



Antigamente - Carlos Drummond de Andrade



Antigamente, as moças chamavam-se mademoiselles e eram todas mimosas e muito prendadas. Não faziam anos: completavam primaveras, em geral dezoito. Os janotas, mesmo não sendo rapagões, faziam-lhes pé-de-alferes, arrastando a asa, mas ficavam longos meses debaixo do balaio. E se levavam tábua, o remédio era tirar o cavalo da chuva e ir pregar em outra freguesia. As pessoas, quando corriam, antigamente, era para tirar o pai da forca e não caíam de cavalo magro. Algumas jogavam verde para colher maduro, e sabiam com quantos paus se faz uma canoa. O que não impedia que, nesse entrementes, esse ou aquele embarcasse em canoa furada. Encontravam alguém que lhes passasse a manta e azulava, dando às de vila-diogo. Os mais idosos, depois da janta, faziam o quilo, saindo para tomar fresca; e também tomavam cautela de não apanhar sereno. Os mais jovens, esses iam ao animatógrafo, e mais tarde ao cinematógrafo, chupando balas de altéia. Ou sonhavam em andar de aeroplano; os quais, de pouco siso, se metiam em camisa de onze varas, e até em calças pardas; não admira que dessem com os burros n’água. 

Havia os que tomaram chá em criança, e, ao visitarem família da maior consideração, sabiam cuspir dentro da escarradeira. Se mandavam seus respeitos a alguém, o portador garantia-lhes: “Farei presente.” Outros, ao cruzarem com um sacerdote, tiravam o chapéu, exclamando: “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”, ao que o Reverendíssimo correspondia: “Para sempre seja louvado.” E os eruditos, se alguém espirrava — sinal de defluxo — eram impelidos a exortar: “Dominus tecum”. Embora sem saber da missa a metade, os presunçosos queriam ensinar padre-nosso ao vigário, e com isso metiam a mão em cumbuca. Era natural que com eles se perdesse a tramontana. A pessoa cheia de melindres ficava sentida com a desfeita que lhe faziam, quando, por exemplo, insinuavam que seu filho era artioso. Verdade seja que às vezes os meninos eram mesmo encapetados; chegavam a pitar escondido, atrás da igreja. As meninas, não: verdadeiros cromos, umas tetéias. 

Antigamente certos tipos faziam negócios e ficavam a ver navios; outros eram pegados com a boca na botija, contavam tudo tintim por tintim e iam comer o pão que o diabo amassou, lá onde Judas perdeu as botas. Uns raros amarravam cachorro com lingüiça. E alguns ouviam cantar o galo, mas não sabiam onde. As famílias faziam sortimento na venda, tinham conta no carniceiro e arrematavam qualquer quitanda que passasse à porta, desde que o moleque do tabuleiro, quase sempre um cabrito, não tivesse catinga. Acolhiam com satisfação a visita do cometa, que, andando por ceca e meca, trazia novidades de baixo, ou seja, da Corte do Rio de Janeiro. Ele vinha dar dois dedos de prosa e deixar de presente ao dono da casa um canivete roscofe. As donzelas punham carmim e chegavam à sacada para vê-lo apear do macho faceiro. Infelizmente, alguns eram mais do que velhacos: eram grandessíssimos tratantes.

Acontecia o indivíduo apanhar constipação; ficando perrengue, mandava o próprio chamar o doutor e, depois, ir à botica para aviar a receita, de cápsulas ou pílulas fedorentas. Doença nefasta era a phtysica, feia era o gálico. Antigamente, os sobrados tinham assombrações, os meninos lombrigas, asthma os gatos, os homens portavam ceroulas, botinas e capa-de-goma, a casimira tinha de ser superior e mesmo X.P.T.O. London, não havia fotógrafos, mas retratistas, e os cristãos não morriam: descansavam. 

Mas tudo isso era antigamente, isto é, outrora.