04 julho 2019

Poema de sete faces (e outras faces)


O Poema de sete faces abre o primeiro livro de poesias de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1930. O poema é uma espécie de certidão de nascimento do eu lírico e nele estão presentes alguns temas que serão constantes na poesia do poeta mineiro.



Sendo extremamente conhecido, não é de se estranhar que o poema tenha sido referenciado e parodiado, seja por grandes artistas, seja por anônimos da internet. Abaixo, trago o poema original e algumas releituras e paródias deste texto tão fascinante.




Poema de sete faces

Carlos Drummond de Andrade

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.


Poem of Seven Faces 

Carlos Drummond de Andrade

When I was born, a twisted angel,
one of those who live in the shadow,
said: Go, Carlos! be gauche in life.

The houses spy on men
who chase after women.
The evening might have been blue,
had there not been so many desires.

The streetcar passes by full of legs:
white, black, yellow legs.
My God, my heart asks, why so many legs?
And yet my eyes
question nothing.

The man behind the mustache
is serious, simple and strong.
He seldom talks.
He has a few, rare friends
the man behind the glasses and the mustache.

My Lord, why did you abandon me
since you knew that I wasn't God
since you knew that I was weak.

World, world, vast world,
if my name was Twirled
it'd be a rhyme, it wouldn't be a solution.
World, world, vast world,
even vaster is my heart.

I shouldn't tell you
but this moon
but this cognac
shake a person up like hell

Disponível em: <http://www.rosangelaliberti.recantodasletras.com.br/blog.php?idb=5055>. Acesso em: 04 jul. 2019.


Com licença poética

Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Disponível em: <http://www.rosangelaliberti.recantodasletras.com.br/blog.php?idb=5055>. Acesso em: 04 jul. 2019.


Até o fim

Chico Buarque

Quando nasci veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim

Inda garoto deixei de ir à escola
Cassaram meu boletim
Não sou ladrão, eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clarim
Um bom futuro é o que jamais me esperou
Mas vou até o fim

Eu bem que tenho ensaiado um progresso
Virei cantor de festim
Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso
Em Quixeramobim
Não sei como o maracatu começou
Mas vou até o fim

Por conta de umas questões paralelas
Quebraram meu bandolim
Não querem mais ouvir as minhas mazelas
E a minha voz chinfrim
Criei barriga, minha mula empacou
Mas vou até o fim

Não tem cigarro, acabou minha renda
Deu praga no meu capim
Minha mulher fugiu com o dono da venda
O que será de mim?
Eu já nem lembro pronde mesmo que vou
Mas vou até o fim

Como já disse era um anjo safado
O chato dum querubim
Que decretou que eu tava predestinado
A ser todo ruim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim

Disponível em: <http://tagarelicesoblog.blogspot.com/2011/11/mais-intertextualidade-o-anjo-torto-e.html>. Acesso em: 04 jul. 2019.


Poema de oito de março (Releitura: poema de sete faces)

Leticia Begnini

Quando nasci, um anjo determinado
 desses que não vivem na sombra me disse
Vai, mulher! Ser luta na vida

As casas perdoam os homens que
correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse roxa,
não houvesse tantos preceitos

O bonde passa cheio de pernas inadequadadas
pernas brancas pretas amarelas
Pra que tanta perna, meu deus, pergunta meu coração
Meus olhos, baixos, porem não perguntam nada

O homem atrás do bigode é sério,
incisivo e forte.
Quase não conversa. Tem muito,
imenso apoio dos amigos.

O abuso atrás dos sorrisos e do bigode.

Meu Deus, por que me enfeitaste
se sabias que eu não era como Eles
se sabias que eu pareceria frágil.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria ouvida, seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essas flores
mas esses cartazes
botam a gente indignada como o diabo.

Disponível em: <https://procurasepalavras.wixsite.com/procura-se-palavras/single-post/2017/03/08/Poema-de-oito-de-mar%C3%A7o-Releitura-poema-de-sete-faces>. Acesso em: 04 jul. 2019.


Poema de sete faces - Paródia

Gertrudes

Quando nasci, um anjo caído e esquisito,
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Gertrudes! ser inconstante na vida.

As abrigos espiam as meninas
que correm atrás de bonecas.
Para serem como elas,
Cabelos loiros e corpo escultural.

A lotação passa cheia de pés:
pés com tênis, chinelos ou descalços.
Para que tanta diferença, meu Deus, pergunto-me baixinho.
Porém meus tênis,
continuam nos meus pés.

A mulher atrás dos óculos
é sorridente, bonita e forte.
Quase não chora.
Tem muitos amigos
a mulher atrás dos óculos e do sorriso,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraca.

Coração, coração, vasto coração,
se eu me chamasse Conceição
seria uma rima, não seria uma solução.
Coração, coração, vasto coração,
mais vasta é a minha ilusão.

Eu não devia lhe dizer
mas esse tédio
mas esse mundo
botam-me mais cinza que o diabo.

Disponível em: <http://aspulsacoes.blogspot.com/2010/01/poema-de-sete-faces-parodia.html>. Acesso em: 04 jul. 2019.


Paródia tendo por base o poema de Sete Faces de Drummond (1930)

Nayara Soutilha

Quando nasci, um anjo anômalo
desses que vivem na irregularidade
disse: Vai, Nay! Desce e samba na cara da sociedade.

Às vezes me conheço e desconheço
sou como o tempo
posso mudar a qualquer momento.

As pessoas com seus tons variados
essa diversidade é encantadora,
cada um com seu próprio DNA e sua tão ilusória retina.
Mas me pergunto, meu Deus, por que há o preconceito?
Já que somos a mistura de tudo e todos!

O homem atrás do corpo ideal
e as mulheres da perfeição.
Tudo isso é desnecessário, ser você mesmo é o ideal.

Quero mais sacanagem, mais pro atividade,
mais aventura, mais certezas e menos não sei!
Será possível meu Deus?

Mundo imenso esse que nós habitamos.
Mundo esse cheio de segredos.
Esse mundo é tão louco quanto a minha própria loucura.

Eu não devia te dizer isso
Mas essa pizza com cheddar
mais essa coca-cola
está tão bom quanto pintar com “lukscolor”.

Disponível em: <https://anomalians.tumblr.com/post/113560403261/par%C3%B3dia-tendo-por-base-o-poema-de-sete-faces-de/amp>. Acesso em: 04 jul. 2019.